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sábado, 5 de março de 2011

A raposa não ensinou o pequeno príncipe a cativar.


Um contraponto sobre o que é cativar.

No livro de Exupery, O pequeno príncipe, existe uma passagem filosófica na qual a raposa responde ao principezinho alguns questionamentos sobre a importância de reciprocidade. Eis o trecho:

(...) Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música.

E depois, olha! Vês lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

__Por favor...cativa-me! disse ela.

__Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
__A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
__Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
__É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei para o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
__Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!...”


Há uma contradição em saber o real significado da palavra cativar: o pequeno príncipe não deveria ter aceitado a proposta da raposa, já que ele previa não ter tempo para ela por precisar conhecer coisas novas. O pequeno príncipe foi irresponsável em aceitar a proposta da raposa, mesmo ela pedindo que ele a cativasse.
Cativar tem um sentido subjetivo, mais profundo; as pessoas conseguem cativar-se verdadeiramente, à medida em que elas estão despretensiosas, desapegadas às regras, à pequenez, às matemáticas do relacionamento. Eis o poder da cativação: doar-se sem ter uma regra, sem que seja obrigatório seguir uma linha de envolvimento. É deixar fluir os sentidos, os toques, os abraços, os desejos, os dias.
A despretensão, o inusitado, o imprevisto faz com que você aprenda a doar-se por inteiro, faz com que você seja livre para estar preso por opção. Faz você sentir necessidade do outro, porque o outro não é só um outro, mas o outro. O outro é responsável não só por cativar, mas também, por aquilo que você se torna quando está na presença dele. Se isso lhes fazem bem é porque cativaram-se verdadeiramente.
O verbo “forçar” não teve o privilégio de fazer parte da linguagem amorosa, passional, fraternal, sensitiva e emocional. Somos e devemos ser livres para cativar; para ser responsável por quem escolhemos.
A raposa, certamente, na sua monotonia, necessitava de algo para colorir sua vida, e essa ânsia a fez propor qualquer forma de relação amigável com o pequeno príncipe. Isso tornou-lhe vulnerável às irresponsabilidades futuras que o pequeno príncipe ia cometer ao deixá-la sozinha, na sua vida preta-e-branca. Foi proveitoso para o pequeno príncipe, envolvê-la na sua fragilidade e depois partir atendendo somente ao egoísmo. Cativar pressupõe dois, é um aprofundamento do nós. O fato dele ter ido embora provou a superficialidade da relação.
Mesmo vendo os campos de trigo, a raposa sempre guardará num vidro vazio a imagem distorcida daquele que não soube cativá-la pelas circunstâncias da vida. E o preço da felicidade que ela pensava em pagar perdeu o valor, por ela ter descoberto algo fantástico: que a felicidade é impagável! 
No fim, a raposa continuou sozinha, com medo dos homens, e com o tempo, passou a refletir sobre as delicadezas do sentir, apreendendo mais uma lição para sua vida: a de não chegar perto daqueles que caçam a reciprocidade sem deixar nada em troca. 
E, em seguida, prosseguiu na sua missão: a de ensinar aos outros o que é cativar verdadeiramente.



Andressa Fabião

6 comentários:

  1. O amor é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sábios.

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  2. Desculpe-me mas creio que você se equivocou ao fazer tal análise.
    O Pequeno Príncipe foi totalmente verdadeiro com a Raposa. Ele não foi "irresponsável". Vc mesma disse: "A despretensão, o inusitado, o imprevisto faz com que você aprenda a doar-se por inteiro, faz com que você seja livre para estar preso por opção."
    Bem aqui vc assume que a pessoa fica presa por opção. O Pequeno Príncipe ficou preso à Raposa por um tempo, mas depois ele precisava ir. A Raposa ensinou ao Principezinho que ele tinha responsabilidades e que havia uma Rosa que o esperava. Foi uma relação de doação. Ambos se cativaram e ambos amaram o suficiente para permitir que o outro tivesse a liberdade de partir. O amor não aprisiona, nem o cativar. Se vc cativa alguém, deve estar pronto para a hora que esse alguém precisar partir. A amizade não pressupõe uma obrigatoriedade de permanência. Se vc ama alguém verdadeiramente, vc vai continuar amando esse alguém mesmo a distância.
    E só para esclarecer, a Raposa já tinha conhecimento que o Principezinho ia partir, mas para ela ser cativada e passar algum tempo com o Principezinho era muito melhor do que nunca ter vivenciado aquele momento com ele.
    Esse é um trecho lindo do livro de Exupéry, pena que poucos compreendem a grandiosidade de sua obra.

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  3. Concordo com você Guin, o sentido literal da obra é esse mesmo! Li esse livro umas 3 vezes e vi o filme umas 5. Mas, sabemos que a literatura "permite" esses contrapontos com as conotações da vida.Somos livres para compreender a obra tal como ela é e tal como nós queremos! A literatura como arte, não necessariamente exige a denotatividade, sempre! A perfeição do leitor está no fato de compreender o sentido da obra e aplicá-la na sua vida em quais momentos quiser. Foi só um paralelo que fiz ao tomar "emprestado" o trecho e as personagens da obra. Obrigada pelo comentário!

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  4. Nossa, que interessante! Eu nunca tinha enxegado essa passagem por essa percepção, mas até que faz um certo sentido.
    Esse livro, apesar de ''simples'' aparentemente, é extremamente complexo, sabem? Existem N passagens dele que, na verdade, realmente parecem possuir algum cunho filosófico. Por exemplo, é perceptível que a rosa do Pequeno Príncipe, seria uma mulher com a qual ela se envolveu amorosamente. Ele, em sua também ânsia de conhecer o mundo, partiu deixando-a sozinha em seu planeta. E só depois de ter vivido tudo o que viveu na terra, é que pôde entender que a sua rosa era única, porque ele havia cativado-a. Mas ele precisou conhecer muitas outras rosas depois dela, para compreender verdadeiramente este ato do que quer dizer ''cativar''.
    Concordo um pouco com sua visão, e o Pequeno Príncipe pareceu mesmo ter agido de forma leviana com a raposa. Foi como uma pessoa ''qualquer'' que conhecemos por acaso no percorrer da vida, ficamos junto dela durante algum tempo, nos conhecendo, se curtindo, aprendendo... e depois, por muitos motivos, alguma das partes sempre acaba partindo deixando-a a outra em sua mais nova solidão. Esse livro é simplesmente fantástico, e existem muitas formas de interpretá-lo, e essa, sem dúvidas, foi uma analise muito interessante.
    Se foi isso realmente que o Exupery quis dizer, não saberemos. Mas eu acho que a ideia dela é que cada um tirasse o seu próprio aprendizado da lição que é esta maravilhosa leitura!

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