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sábado, 17 de julho de 2010

A menina dos sapatos coloridos

A felicidade para ela tinha um sinônimo: a cor pink-cheguei.        

As horas partiram e correram pelos calafrios que abraçaram a espinha dorsal de um ser inerte, algo dentro dela já previa quem vinha lhe visitar. O tic-tac avisou que a tristeza ia chegar nada a fazer por enquanto, apenas recebê-la com um banquete de pensamentos frustrados e alguns dissabores. O sorriso se fez ausente, a lágrima surgiu tanto quanto a chuva e, a menina, dos sapatos “azul-royal”, acreditava que essa seria sua sina: esperar por algo que não vinha.
Não aguentou as oscilações das tonalidades de cinzas que passeavam pelas nuvens opacas do seu quarto. Então, correu para a estante de livros, que já havia lido apenas com o olfato, captando o cheiro de novas ideias, porém descartou-os imediatamente, pois ela sabia que essa relação de leitura precisava das cores vibrantes e das sinceridades do seu pensamento.
Sete horas da noite, e nada de sua expectativa ser acalentada. Um tal de “escuro noturno” estava ensaiando no espelho uma fala, para informá-la que o vazio tinha acabado de estacionar o carro em sua porta.
A moça, dos sapatos “azul-orkut”, voltou para dentro de si e encontrou um eco no qual a voz da esperança parecia desafinar no último som de dó menor. Recebeu o vazio em sua casa, e tentou desapontá-lo ao ceder espaço para o negativismo; volveu-se novamente para sua estante de livros  desarrumada, e escolheu uma obra de bolso antiga, que se fez presente em sua adolescência: “ Eu e outras poesias”, de Augusto dos Anjos, ao tocá-la, sentiu que as agruras sentimentais de sua juventude havia voltado, reafirmando seu velho sentimento, e ao abrir o livro encontrou uma poesia intitulada de Solitário que a identificou por completo, com um trecho que estava escrito assim:
“ Como um fantasma que se refugia na solidão da natureza morta/Por trás dos ermos túmulos, um dia, eu fui refugiar-me a tua porta/ Fazia frio e o frio que fazia não era esse que a carne conforta... Cortava assim como em carniçaria o aço das facas incisivas corta...”.
Para a menina do short azul-pálido, aquele soneto caiu como a sorte de encontrar algo perdido, maximizando o que já lhe parecia óbvio: a solidão e o vazio.
O telefone tocou pouco tempo depois, e a expectativa dela reascendeu como um neon convulsivo, parecendo uma consumista numa loja em promoção. “Quem será?”, perguntou algum curioso feliz dentro dela.
A voz parecia cálida tentando justificar-se ao telefone, cada palavra proferida vinda do outro lado do fio era a firmação do devir, e aquilo acalentava, apenas pela metade, o coração cinza e desproporcional que ela havia desenhado dentro de si. O ouvido alheio sentiu que o músculo responsável pelos batimentos pulsava duvidosamente ao desligar.
Ela decidiu trocar os sapatos azuis por um negro que representava sua decisão e sua direção. Incerta do que queria, foi buscar nas palavras uma resposta para seu novo rumo, ela queria imediatamente outro sentido para sua vida.
Encontrando-se nas consoantes e nas entrelinhas dos textos, teve múltiplos orgasmos ao conseguir construir uma poesia sobre a alegria, um sentimento tão avesso ao que existia dentro do seu eu.
Segundos depois, o telefone desesperado retornou a tocar. Ela, risonha e feliz com o resultado da sua verve literária, recebeu dos deuses uma transfusão de satisfação, ao perceber que a tristeza havia perdido lugar na sua alma de artista, nem percebeu que o telefone estava gritando novamente, pois ela havia desistido de esperar, “optando pelo simples”, como diria um amigo poeta.
 Alcançando o último toque do aparelho, ela arrancou o fone do gancho e recebeu de uma voz, meio “willian boneana”, a informação de que um caminhão de felicidade eterna havia dado “luz alta” e que estava buzinando freneticamente ansioso para entrar pelo portão de sua garagem.
Correndo descalça e desastrosamente para receber mais uma visita, calçou seus sapatos “pink-cheguei”, e recebeu sua tão esperada convidada: a felicidade, e, percebeu que ali não tinha mais uma mulher vazia, pálida. Mas, determinou que ali estava uma pessoa preenchida de denotações, paroxítonas, hiatos, fonemas, monossílabas,conotações, aspas, reticências, adjetivos, apostos, antônimos, parágrafos, pois tudo isso eram ferramentas que faziam dela, um texto colorido, feliz e inacabado. Além disso, havia apenas um predicado que expressava um verbo de ação, indicando que sua felicidade tinha subido para o norte e não habitava mais no sul.
E pensou consigo mesma: qual a cor dos sapatos que devo usar amanhã para receber a melhor amiga da felicidade?