domingo, 17 de julho de 2011

Muita pressa nessa hora.


É. Foi rápido assim: primeira sexta-feira de maio nas últimas horas do dia. A lua parecia inerte naquele céu chapriscado de estrelas. kate estava numa dessas janelas que a levavam para o outro lado do mundo, e sem muitas pretensões com aquele bate-papo, saiu fuçando para ver a vida alheia contida no planisfério virtual; foto por foto, status de relacionamento, comunidades que revelavam facilmente um “eu” que até então era desconhecido; observou postagens, comentários para entender aquele outro planeta que encontrava-se sentado em algum lugar da cidade. Percebeu que por aquelas fibras ópticas tantos caminhos se encurtavam para se chegar mais rápido num lugar mágico, tantas informações estavam disponíveis, simples como um click que despertou o desejo do sim. Encontraram-se naquela mesma noite. E por que não? o mundo virtual, quando transcende para a vida real, exige a mesma rapidez para viver as intensidades das emoções.
Era um bar que ficava próximo à praia, aconchegante, luz baixa e amarela quase uma carícia sobre quem ali estava. Não mais que de repente, numa mesa de canto, vestido de humano, não mais de pontos luminosos, estava sentado cheio de charme; algo em torno de um metro e noventa de altura, camisa azul escura, calça jeans e uns óculos de grau que, até as horas que são, não conseguiram convencê-la de que ali havia um ser fechado, metido a intelectual. A seriedade ou a chatice de Peter não estava em jogo por causa de um acessório, mas nenhuma virtude dele se escondia de Kate, exatamente pela intimidade que eles adquiriram rapidamente através de uma sensação mútua de terem se conhecido bem antes, em alguma vida passada. Parece que ela enxergava por trás daquelas lentes um menino extremamente brincalhão, de bem com os hormônios, de bom humor, embora os percalços da vida o transformaram em homem antes do tempo. Ele era conhecido vulgarmente como “Peter”. Tomaram alguns drinks e viveram conversas felizes; expressões que em alguns minutos de bate-papo se traduziram numa eternidade com fim. 
Os dias seguintes foram vividos como algo indissolúvel, tudo muito mágico, sobretudo as trepadas que os configuravam como bichos desejantes, encantadores, havia brilho nas coisas mais idiotas e o tempo vivia com pressa. Eles também, só que essa ligeireza não era a de um tempo cronológico, era uma agonia de querer gastar toda a paixão desmesuradamente que nascera tão de pressa, e como toda pressa de viver se traduz em imperfeição no decorrer da ansiedade, Peter desacelerou toda a eternidade que eles haviam construído, sem motivos convincentes resolveu acabar tudo como uma camisa que se diz ao avesso. Kate procurou compreender através de mil psicologias a metamorfose inversa de uma borboleta que voltou a ser pupa; não conseguia se convencer, preferiu a matemática e encontrou uma saída: o que não teria solução estava completamente resolvido. Decidiu viver a outra parte da felicidade que lhe restava; foi embora e percebeu que tudo não passou de uma perfeição que se tornou inimiga da pressa. Após algum tempo, Kate agradeceu encarecidamente a Peter o bem que ele fez para ela, ao decidir tudo sozinho. 
No dia seguinte, a vida apareceu "verdinha" totalmente online.

Andressa Fabião

segunda-feira, 11 de julho de 2011

a- Luno



(Para meus alunos guerreiros.)


Nada de a-Luno!
Nada de ser sem luz!

Todos são assim: 
Quando não são guardas do sol
São lâmpadas acesas

Quero todos  assim:
Para mim
Por mim
Perto de mim.

Sou de vocês
Assim como vocês me são
Não sou professora
Só sou amadora do que vocês me dão

Quantos me levam de mim para si
Quantos se dão de si para mim
Quantos somos "nós"?

Não sei.
Só sei da saudade daqueles
Que buscaram em mim e encontraram
O que já tinham  de luz em si.


Andressa Fabião




terça-feira, 7 de junho de 2011

A Língua Portuguesa como instrumento de poder para todos na sociedade.


A linguagem humana sempre foi um dos pré-requisitos para estabelecer as características da cultura de um povo. Das antigas civilizações ao século XXI, podemos perceber o quão a língua dentro da esfera social estabeleceu-se como instrumento de força, de poder, de status social e de prestígio, sobretudo na linguagem oral. O Latim erudito era falado apenas por aqueles que compuseram o vértice da pirâmide social, já o Latim vulgar, pai do nosso idioma, era proferido por aqueles que se encontravam na base do triângulo social. Essa “herança” influencia, até hoje, nosso modo de ser, de agir, pensar e principalmente na maneira de falar porque na fragmentação social sempre houve aqueles que gozavam de mais prestígios, que tinham acesso aos livros, à cultura e à educação, e, outros que ficavam à margem social, sem acesso aos meios educativos e desprovidos de recursos.
E o que é que a Língua Portuguesa tem a ver com isso? Tudo! Primeiro, porque ela é um órgão vivo assim como o coração, os pulmões, o cérebro, enfim, inerente a qualquer ser vivo que se preze enquanto falante inserido num contexto, independente de camadas sociais; jamais ouvimos falar que o coração de um rico pulsa 'melhor' do que de um pobre. Segundo, porque é através da língua materna que, em quaisquer circunstâncias da vida, os seres humanos interagem, transformam-se e se emancipam; a língua promove ou destrói qualquer indivíduo, desde que ele saiba usá-la, e terceiro: é ela quem dá suporte a outras ciências para que estas sejam compreendidas; não tem como ler um livro de filosofia se eu não compreendo o mínimo da língua escrita.
A Língua Portuguesa é um bem cultural comum; tanto para pobres como para ricos. Então, não há como mumificar a linguagem humana, desprezando todas as suas capacidades de mutação; melhor dizendo, não há como determinar o “certo” e o “errado”, uma vez que para ser um bom falante do idioma, basta que o indivíduo utilize a adequação no ato comunicativo. É errado eu escrever “vc” numa janela de bate papo na internet? Não, pois o que está em jogo é o contexto comunicativo que exige agilidade. Muitos ainda sofrem de miopia aguda quando comparam a linguagem escrita à linguagem oral, já que não há como comparamos um morto, em termos de vitalidade, a um vivo.
A língua, além de ser um organismo vivo, tem a necessidade de se atualizar, de ser dinâmica conforme as necessidades e o contexto do falante. Por isso, é plausível, extremamente necessária e moderna a ideia de termos em nossos materiais didáticos as diversas possibilidades de compreendermos os níveis de linguagem; “É tornar-se poliglota do próprio idioma”, como disse Evanildo Bechara. Já aqueles que desprezam essas possibilidades de entender o todo da ciência linguística, podemos afirmar que são partidários de que é um absurdo aprender o inglês, francês, carioquês, internetês, paraibanês, etc, já que trata-se de uma língua diferente. Reafirmo: não há português errado quando trata-se de oralidade. Agora, como todo idioma que necessita de estrutura, de um padrão para reger a escrita, se faz necessário utilizar a norma padrão, em um dado momento, quando o gênero textual exige toda formalidade possível.
Como se não bastassem esses pequenos exemplos supracitados, ainda é possível observarmos inúmeras pessoas divergindo acerca da cartilha do MEC que ensina o “Português errado”, gente que vive corrigindo os outros quando pronunciam uma concordância verbal “errada”, pessoas que adoram zombar de outras que fogem ao padrão culto da língua. Abaixo o preconceito linguístico! Pois essa prática baseada numa ditadura fragilizada é que está ultrapassada, equivocada e extremamente desatualizada. Atentemos para o fato de que a diversidade linguística existe e devemos estar aptos às novas possibilidades de comunicação, em vez de estarmos criticando sem nenhuma fundamentação linguística o diferente.
Embora a língua seja um instrumento de poder no meio social, ao observarmos os linguajares “bonitos”, “ convincentes” que supostamente conferem credibilidade e estão adequados às sintaxes da vida, é fundamental averiguarmos um fato: o prestígio linguístico deve ser para todos e não para uns. Aplaudamos o falante da gramática quando ele for bem vindo dentro da sua circunstância; fiquemos de pé e aplaudamos também aqueles que estão abertos a compreender os novos horizontes dos estudos linguísticos o qual engloba todas as falas humanas.


Andressa Fabião

domingo, 20 de março de 2011

O diálogo como base das práticas educativas.

discurso paralelo no fazer educativo

Muitos pensadores da educação buscaram uma teoria capaz de solucionar os diversos problemas encontrados na esfera educativa. Do pó de giz ao contexto social em que o aluno está inserido; da vida na educação infantil à adulta; desde o capital cultural do professor ao processo de ensino e aprendizagem; dos recursos didáticos tecnológicos ao comportamento humano, tudo isso são e foram preocupações importantes que os cientistas da educação se ocuparam em pensar, compreender e solucionar na prática, o processo educativo, cuja relevância se estende para todo o sempre na vida de um ser humano.

De John Dewey a Anísio Teixeira, de Emanuel Lévinas a Paulo Freire, dos jesuítas a Piaget, todos esses teóricos da educação tiveram como propósito, o de acrescentar na pedagogia paradigmas que solucionassem as complexidades das relações humanas no fazer educativo.


Aqui, muito próximo a nós, tivemos Paulo Freire, grande educador pernambucano, que ficou conhecido em todo o mundo por ter fundamentado sua pedagogia nas bases dialógicas e na antropologia: “Para pôr o diálogo em prática, o educador não pode colocar-se na posição ingênua de quem se pretende ser detentor de todo o saber, deve, antes, colocar-se na posição humilde de quem sabe que não sabe tudo, reconhecendo que o analfabeto não é um homem perdido, fora da realidade, mas alguém que tem toda uma experiência de vida e por isso também é portador de um saber”, Paulo Freire. Essa visão deu muito certo nas práticas pedagógicas, porque o diálogo é fundamental para quaisquer situações da vida, inclusive a Educação.


O diálogo é uma relação de comunicação estabelecida entre dois. A própria etimologia da palavra define a importância de se ter dois com voz ativa: “ dial= dois”, para haver comunicação. Se só um tem voz ativa, teremos um monólogo. Então, é pela célula da comunicação, a palavra, que buscaremos sempre uma solução imediata para os problemas que permeiam a sala de aula. É atribuir para dois (aluno/professor) as soluções desses problemas. Mas, não falo da palavra vertical que vem de cima para baixo, do professor sabichão e do aluno sem luz. O que está em jogo, o que deve ser “moda” é o discurso paralelo, aquele capaz de construir, pensar e transformar o eu e o nós. Falo do discurso entre sujeitos que são protagonistas da educação.


Além do giz, do pincel atômico, do datashow, do livro, é preciso ter sempre como ferramenta principal o diálogo transformador e não aquele a que estamos acostumados: que reproduz a imagem de uma sociedade cada vez mais desigual, preconceituosa, excludente. Assim como o médico que tem técnicas para salvar vidas através de procedimentos cirúrgicos, o professor possui, entre outras coisas, uma grande ferramenta -a palavra- para promover, ou destruir a vida de um aluno. O que é que nós queremos? Destruir ou promover? Tenho certeza que a segunda opção é a que temos como pendão. E para que nós possamos cumprir nosso papel -de educar- é preciso desenvolver uma práxis fundamentada nas vozes, que dê ao ato de aprendizagem uma significância real, a partir de uma realidade concreta, isto é, da situação real vivida pelo aluno, num processo de compreensão, reflexão e crítica. E é priorizando o diálogo que sempre atingiremos uma educação para liberdade de pensamento, de promoção, de crítica, de autoconhecimento tanto para o aluno, como para nós professores, eternos aprendentes dos saberes da vida.



Andressa Fabião

quinta-feira, 17 de março de 2011

Uma passeio noturno pelas ideias de Gaston Bachelar*.


Ao passear pela noite, numa rua bem deserta e florida, num país chamado Filosópolis, comecei a refletir sobre um filósofo francês que tinha tudo para ser meu amigo, porém as adversidades do tempo permitiram que nós nascêssemos em épocas muito distantes, porém isso não fez com que nossa admiração fosse mútua, recíproca. Não foi demérito nem para mim nem para ele, pelo contrário partilhamos do mesmo pão, da mesma cumplicidade quando o assunto trata de filosofia.
Aqui, pretendo falar, muito brevemente, sobre as epistemológias da vida inclusive daquela que me fez refletir mais acerca do conhecimento científico. A de Gastón Bachelard me dá um alívio por leva em consideração o processo histórico da ciência. “ Toda reflexão efetiva, capaz de estabelecer o estatuto das ciências empírico-formais e formais, deve ser necessariamente histórica.”
Ele se propôs a construir uma epistemologia visando à produção dos conhecimentos científicos sob todos os aspectos: lógico, ideológico, histórico, social, poético.
A epistemologia se propõe a interrogar as relações existentes entre ciência e sociedade, pois o que é necessário para Bachelard é que se descubra a origem do saber científico.
As ideias do positivismo serviram de base para a epistemologia de Bachelard porque o positivismo tinha uma visão limitada determinando que as ciências experimentais são verdades claras, unas e imutáveis. Bachelard cria sua epistemologia para criticar essa direção única e exclusiva, ele tenta compreender e refletir a ciência fazendo uma crítica à própria ciência. O pensamento científico deve ter base não só na razão, mas também nas atividades subjetivas que compõe as ações humanas.
A obra de Bachelard se apresenta com uma dupla pedagogia: da Razão imaginação. A razão é descoberta a a partir de retificações contínuas, por críticas, polêmicas e a partir disso ela constrói suas verdades.“O homem é ao mesmo tempo RAZÃO e IMAGINAÇÃO.”
Um pensamento científico não é um sistema acabado, deve ser uma incerteza constante, pois é preciso levar em consideração a verdade que é encontrada a partir da negação do que foi produzido pelos produtores das ideias científicas. Nem muito menos a filosofia deve ser uma, fechada em si mesma, pelo contrário, ela deve estar atenta às mudanças da ciência moderna para que ela possa cumprir seu papel fundamental: compreender e refletir sobre as relações entre o homem e o produto do seu conhecimento científico.
A obra Bacherlardniana é centrada na constante reformulação do saber científico e das noções filosóficas. Bachelard pretende mostrar com sua epistemologia que a ciência deve renunciar a um saber universal e cabe à filosofia compreender a relação que existe entre o homem e o saber. É necessário refletir sobre essa relação para que haja uma melhor compreensão dos erros do passado e com isso reformule as descobertas da atualidade.
Segundo Bachelard, a filosofia não tem um objeto de estudo, por isso ela não pode tomar a ciência como tal, mas deve sim compreender as relações do homem com a ciência para que ela possa ter uma função que lhe cabe: distinguir nos discursos científicos aquilo que pertence à prática científica daquilo que provém das ideologias.
O papel dos epistemólogos é compreender os valores que intervêm na prática científica. É preciso “ dar à ciência a filosofia que ela merece”.
A ciência se constrói a partir das “ verdades” constantemente retificadas.
A epistemologia de Bachelard quer garantir uma filosofia aberta, que não se encontra mais em si mesma, não quer garantir um método permanente e definitivo.
A vertente poética de Bachelard trata-se de compreender o “eu” enquanto ser sonhador em busca do conhecimento através da imaginação. Essa imaginação afirma-nos como sujeito e os fenômenos como objetos. “ A imaginação começa e a razão recomeça”.

Obs.: *Gaston Bachelard nasceu em 27 de junho de 1884, em Bar-sur-AubeFrança e faleceu a 16 de outubro de 1962, em Paris, França. Foi um filósofo poeta francês que estudou sucessivamente as ciências e a filosofia. Seu pensamento está focado principalmente em questões referentes à filosofia da ciência.(via Wikipedia)

sábado, 5 de março de 2011

A raposa não ensinou o pequeno príncipe a cativar.


Um contraponto sobre o que é cativar.

No livro de Exupery, O pequeno príncipe, existe uma passagem filosófica na qual a raposa responde ao principezinho alguns questionamentos sobre a importância de reciprocidade. Eis o trecho:

(...) Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música.

E depois, olha! Vês lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

__Por favor...cativa-me! disse ela.

__Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
__A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
__Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
__É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei para o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
__Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!...”


Há uma contradição em saber o real significado da palavra cativar: o pequeno príncipe não deveria ter aceitado a proposta da raposa, já que ele previa não ter tempo para ela por precisar conhecer coisas novas. O pequeno príncipe foi irresponsável em aceitar a proposta da raposa, mesmo ela pedindo que ele a cativasse.
Cativar tem um sentido subjetivo, mais profundo; as pessoas conseguem cativar-se verdadeiramente, à medida em que elas estão despretensiosas, desapegadas às regras, à pequenez, às matemáticas do relacionamento. Eis o poder da cativação: doar-se sem ter uma regra, sem que seja obrigatório seguir uma linha de envolvimento. É deixar fluir os sentidos, os toques, os abraços, os desejos, os dias.
A despretensão, o inusitado, o imprevisto faz com que você aprenda a doar-se por inteiro, faz com que você seja livre para estar preso por opção. Faz você sentir necessidade do outro, porque o outro não é só um outro, mas o outro. O outro é responsável não só por cativar, mas também, por aquilo que você se torna quando está na presença dele. Se isso lhes fazem bem é porque cativaram-se verdadeiramente.
O verbo “forçar” não teve o privilégio de fazer parte da linguagem amorosa, passional, fraternal, sensitiva e emocional. Somos e devemos ser livres para cativar; para ser responsável por quem escolhemos.
A raposa, certamente, na sua monotonia, necessitava de algo para colorir sua vida, e essa ânsia a fez propor qualquer forma de relação amigável com o pequeno príncipe. Isso tornou-lhe vulnerável às irresponsabilidades futuras que o pequeno príncipe ia cometer ao deixá-la sozinha, na sua vida preta-e-branca. Foi proveitoso para o pequeno príncipe, envolvê-la na sua fragilidade e depois partir atendendo somente ao egoísmo. Cativar pressupõe dois, é um aprofundamento do nós. O fato dele ter ido embora provou a superficialidade da relação.
Mesmo vendo os campos de trigo, a raposa sempre guardará num vidro vazio a imagem distorcida daquele que não soube cativá-la pelas circunstâncias da vida. E o preço da felicidade que ela pensava em pagar perdeu o valor, por ela ter descoberto algo fantástico: que a felicidade é impagável! 
No fim, a raposa continuou sozinha, com medo dos homens, e com o tempo, passou a refletir sobre as delicadezas do sentir, apreendendo mais uma lição para sua vida: a de não chegar perto daqueles que caçam a reciprocidade sem deixar nada em troca. 
E, em seguida, prosseguiu na sua missão: a de ensinar aos outros o que é cativar verdadeiramente.



Andressa Fabião